Uma reflexão sobre o impacto da desvalorização do capital intelectual na qualidade dos serviços de energia no Paraná – Gilson Zardo

1. O Legado de Excelência: O Suor por Trás dos Troféus
A trajetória da Companhia Paranaense de Energia (Copel) nunca foi escrita apenas com números e balanços financeiros, mas com o compromisso inabalável de gerações de “copelianos”. Durante décadas, a empresa consolidou-se como um símbolo de eficiência e orgulho para o Paraná, fruto de uma cultura organizacional que valorizava o saber técnico e a dedicação extrema. Esse esforço coletivo não passou despercebeu pelo setor elétrico: a Copel tornou-se presença constante no topo do ranking da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE), sendo laureada múltiplas vezes como a melhor distribuidora do Brasil. O crescimento econômico-financeiro robusto da companhia era, na verdade, o reflexo direto de um quadro de profissionais que tratava a rede elétrica não como um ativo contábil, mas como um serviço essencial à vida e à dignidade da população paranaense. A Copel não contratava apenas funcionários; ela formava especialistas. Profissionais recém-formados escolhiam a companhia como destino de carreira e nela permaneciam por toda a vida profissional. Técnicos ingressavam jovens, muitas vezes como aprendizes, e cresciam dentro de casa, galgando posições à base de mérito e estudo. Eletricistas conheciam cada comunidade, cada propriedade, cada acesso rural — um conhecimento que nenhum banco de dados substitui. A empresa mantinha um dos mais robustos programas internos de treinamento e desenvolvimento do setor elétrico brasileiro, investindo na formação técnica, na segurança e na atualização constante de seu quadro. A dedicação cotidiana desses profissionais era a engrenagem que movia o estado: madrugadas de trabalho, feriados e tempestades não eram exceção, mas rotina. O eletricista que religava a energia sob chuva para que um hospital não parasse; o operador de centro de operação que passava o Natal diante das telas de supervisão; o técnico que percorria centenas de quilômetros para atender uma propriedade rural isolada no interior do estado. Eram gerações de famílias que se orgulhavam de dizer “sou da Copel” — e esse orgulho se traduzia em zelo, capricho e responsabilidade em cada serviço executado. Foi essa gente, com suas mãos e suas mentes, que ergueu as linhas, montou as subestações, configurou os sistemas e construiu o sistema elétrico do Paraná levando energia elétrica a 100% da população do Paraná.
2. Inovação e Desenvolvimento: Conquistas Humanas na Fronteira Tecnológica
As inovações que colocaram a Copel na vanguarda do setor sendo referência em vários processos e tecnologias foram, acima de tudo, vitórias da inteligência humana de seu quadro de profissionais. Cada uma das inovações carregavam a assinatura de especialistas que compreendiam as particularidades geográficas e climáticas do estado. O sucesso tecnológico da Copel era a prova de que a inovação floresce onde há segurança institucional e valorização do conhecimento acumulado.
3. O Cenário Pós-Privatização: A Ruptura do Ecossistema
O processo de desestatização, embora prometesse eficiência de mercado, trouxe consigo uma ruptura traumática no ecossistema humano que sustentava a operação. Em maio de 2026, o reflexo dessa desestruturação atingiu seu ápice com a convocação da diretoria da companhia para prestar esclarecimentos na Comissão de Infraestrutura do Senado Federal. O aumento exponencial no volume de reclamações e a degradação visível na agilidade do restabelecimento de energia em diversas regiões do Paraná evidenciaram que a tecnologia, por si só, é incapaz de operar milagres sem o olhar atento do especialista humano. O que se viu foi a substituição de um modelo baseado na excelência técnica por uma gestão focada na redução imediata de custos, resultando em uma queda de qualidade que hoje é sentida tanto pela indústria quanto pelo consumidor residencial.
4. A Destruição de uma Cultura Vitoriosa
A Copel não era apenas uma empresa bem gerida; era portadora de uma cultura vitoriosa construída ao longo de mais de seis décadas, formada por orgulho de pertencimento, meritocracia técnica, senso de missão pública e visão de longo prazo. Os profissionais não trabalhavam apenas por salário, mas por propósito e identidade, acreditando que seu trabalho construía o Paraná. Essa cultura era o amálgama que unia desde o eletricista na ponta do sistema até o engenheiro no centro de operação, criando um ambiente onde a excelência era a norma, não a exceção. Foi essa cultura que permitiu à companhia cumprir seus objetivos estratégicos com alta lucratividade e, simultaneamente, perenidade. A lucratividade vinha da produtividade — equipes engajadas, baixa rotatividade, conhecimento acumulado, menos retrabalho e menos falhas. A perenidade vinha da visão de longo prazo — reinvestimento contínuo, formação de sucessores, transferência de conhecimento entre gerações e compromisso com a qualidade que atravessava governos e ciclos econômicos, garantindo a robustez do sistema elétrico paranaense. A privatização, ao tratar essa cultura como custo a ser eliminado, destruiu o ativo mais valioso da companhia. O PDV não retirou apenas pessoas — retirou o vínculo de identidade que fazia o profissional dar o melhor de si. A meritocracia técnica foi substituída pela lógica financeira de curto prazo; o senso de missão pública, pela busca do resultado trimestral; a formação de sucessores, pela terceirização sem vínculo. O resultado é uma empresa que pode até apresentar lucro imediato, mas que perdeu a engrenagem cultural que garantia sua sustentabilidade e perenidade ao longo das décadas. Esses profissionais eram o rosto da empresa diante da sociedade paranaense — o pai que consertava a rede do bairro, o vizinho que atendia na agência, o engenheiro que assinava os projetos que iluminaram o estado — e descartá-los foi descartar décadas de serviço dedicado e de vínculo com as comunidades.
5. A Crise do Conhecimento: O Vazio Técnico
O desligamento em massa de 1.078 profissionais altamente qualificados, representando cerca de 25% do quadro total por meio de Planos de Demissão Voluntária (PDV), representou uma “amputação” da memória técnica da companhia. Partiram engenheiros seniores, eletricistas e operadores de sistema que possuíam o conhecimento tácito de cada ramal e particularidade da rede paranaense — um saber que não se encontra em manuais ou sistemas de TI. Esse vazio técnico deixou a operação vulnerável, uma vez que a curva de aprendizado de novas equipes terceirizadas não consegue acompanhar a complexidade de um sistema construído e mantido por décadas por especialistas de carreira. Paralelamente, a fragilização dos serviços de apoio — como logística de suprimentos, faturamento e inteligência regulatória — comprometeu a sustentação da atividade fim. Setores que antes funcionavam como uma engrenagem silenciosa e eficiente passaram a apresentar falhas críticas, desde a demora na reposição de equipamentos específicos até erros sistêmicos de leitura e atendimento ao cliente. A invisibilidade desses profissionais de suporte mascarava sua importância vital; sem o suporte administrativo, jurídico e logístico de quem conhece os processos internos da casa, a linha de frente operacional encontra se isolada e desprovida das ferramentas necessárias para manter o padrão de excelência histórico. Por fim, a saída desses profissionais rompeu a rede informal de confiança e cooperação que era o verdadeiro diferencial da Copel. A eficiência operacional não dependia apenas de ordens de serviço, mas da colaboração mútua entre departamentos que se comunicavam com agilidade e precisão. Com a quebra desse tecido social e técnico, os indicadores de continuidade DEC (Duração Equivalente de Interrupção) e FEC (Frequência Equivalente de Interrupção) sofreram deterioração, evidenciando que a ineficiência é o preço que se paga quando se ignora que o sucesso de uma empresa de infraestrutura reside na sinergia de suas pessoas, e não apenas na frieza de suas máquinas.
6. Conclusão: O Preço da Memória Apagada
Ao final desta análise, resta uma reflexão necessária para o setor elétrico brasileiro e para a sociedade paranaense. A economia contábil obtida com a redução da folha de pagamento e a terceirização desenfreada parece pálida diante do custo social e econômico da queda na qualidade do serviço. O conhecimento acumulado por milhares de profissionais ao longo de uma vida não é um gasto a ser cortado, mas um ativo estratégico que garante a resiliência de um estado. Diante de um cenário de incertezas e reclamações crescentes, a pergunta que ecoa nos corredores agora silenciosos da companhia e nas casas dos paranaenses é: o modelo de gestão adotado pelos novos gestores da empresa conseguirá manter ou agora, recuperar e até mesmo evoluir a qualidade de fornecimento de energia tão importante para a vida das pessoas e desenvolvimento do estado do Paraná? O reconhecimento a esses dedicados e competentes profissionais que construíram a Copel deve ser parte permanente da memória institucional do Paraná. Antes de qualquer balanço financeiro, é preciso lembrar que foram eles — com competência, compromisso e sacrifício pessoal — que tornaram a Copel o que ela foi. Nenhuma reestruturação empresarial, por mais profunda que seja, pode apagar o valor imensurável do que construíram ao longo de décadas de serviço ao povo paranaense.

